quinta-feira, 28 de agosto de 2008

# 126

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e sorrateiro ele começa a bisbilhotar pelo buraco que encontra naquele muro escuro.
e o mais curioso, é que não sabe nada sobre aquele lugar, nunca ali estivera, só passava pela rua e quis enxergar de mais perto.
e assim são as coisas.
lá de longe soam belas e perfeitas, até que a curiosidade e a vontade tão comuns aos homens as tornam comuns e ordinárias, passando a ter perceptíveis defeitos, que lá de longe não se via.
e no tempo que só havia beleza todos queriam estar mais perto.
mas depois da maculação daquilo que era longe, depois da hora em que vira perto, o encanto desaparece.
e passa a ser mais um.

aquilo por detrás do muro, maravilhará o menino nesse instante, e também nos outros enquanto ele apenas observar pelo buraco na parece cinza.
quando a sua curiosidade de gente o fizer saltar o concreto pra enxergar de perto o que lá há, o encanto se desfará e o menino procurará outro objeto pra despertar seu desejo de falta de distância.


quinta-feira, 7 de agosto de 2008

# 125

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não existem relógios,
nem formas realmente eficazes de contar o tempo.
as gentes convencionam suas medidas,
pra tentar contar tudo, cada coisa que existe
quase que num jeito ensandecido de controlar o mundo
mas são contagens tolas, há coisas incontroláveis.
por mais que se contem o tempo, não tem como saber o exato tamanho da saudade.
essa eu tenho medido com as horas. sempre as horas.

(começo de conversa de msn)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

# 124

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e não é que a tal da chuva resolveu que ia matar a saudade dos solos da cidade (e dos meus sapatos, claro)?
num começo de tarde desses, quaisquer, de repente o céu se fecha como um livro cansativo e pesado, e sem nem pedir licença ou esperar o horário de almoço terminar, derrama aquela chuva gelada em cima do moço que andava sério, ou pelo menos parecer assim, com pasta e barba por fazer na rua.

quando deu por si, seus cabelos já se molhavam e os ombros lhe pesavam. não se lembrava direito de seu último dia de chuva, talvez estivesse começando a aprender a esquecer aqueles empecilhos da vida, mas ainda assim não gostou de sentir a água molhando suas meias.

choveu pouco, talvez por somente uns 10 minutos, mas o suficiente pra fazer daquele céu antes azulado, dum cinza escuro que dava medo, precisando até acender a luz daquela sala de trabalho.

e depois da trégua da hora de ir embora, o moço, no auge da insônia, se depara com a chuva de madrugada, guiando suas palavras com o barulho dos pingos batendo no vidro da janela à suas costas.